27 dezembro, 2006

Experimental. Trabalho da madrugada

Entusiasmado com sua maconha sem THC, Heath fez uma experiência: usando eletrodos em 800 carros e trailers, a fim de explanar mediante um exemplo empírico uma mentira maldosa, trouxe uma grande janela em círculo para o local. O povo partia para seu grande destino: a morte.

Aquela noite foi, também, uma festa. Pode parecer natural a um coletivo bem informado o castigo representar o festivo.

Não há crueldade. Foi um fato social e político. O fim do trabalho de 13 macacos transcendentais que há 200, 400 anos, haviam estacionado carroças e carrinhos de mão em torno da terra. Uma historia antiga, mediante a qual um homem é equivalente a uma sociedade.

(Em parceria com Pedrinho)

07 dezembro, 2006

antigos amigos. primeiro encontro.

Ele não sabia, mas certa vez um amigo havia lhe dito que aquilo poderia ser perigoso. Ali havia desejos distintos que para entrar em conflito precisavam apenas de um primeiro encontro. Ao que parece, na ocasião, ele tinha até concordado com a opinião do amigo. Mas a verdade é que nada disso era de seu conhecimento.

A partir daqui dá-se o encontro e os fatos entram no tempo.

Era noite de sábado, e os dois foram assistir a apresentação de um cantor de ópera. A música era boa, mas o interesse mútuo do casal era voraz. Não conseguiam não se fazer perguntas, e acabaram por ter uma apreciação fragmentada tanto do espetáculo quanto um do outro. Então a apresentação terminou, e a curiosidade, por três atos paralisada, foi libertada e os consumou. Foram horas, madrugada adentro, de interessada conversa.

Amanhã será manhã de segunda-feira. Ele irá acordar em seu quarto. Nesse instante já saberá da opinião do amigo. Saberá, mas achará, por não empírica, infundada e até mesmo infantil. No quarto ele olhará ao redor de si, sairá em direção à sala, verificará a cozinha e por fim o banheiro: descobrirá que está sozinho.

Mais tarde será visitado por uma leve tristeza. Daí será obrigado a levar em conta a sentença de seu amigo. Vai argumentar contra e a favor e não ultrapassará a barreira da dúvida. Chegará à conclusão óbvia de que é impossível afirmar qualquer coisa, se se quer precisão, quando se lida com argumentos vulneráveis e fantasiosos.

Mas por enquanto ele não sabe de nada disso. Já é quase manhã de domingo. Ele acaba de retornar a sua casa. Ele deita em sua cama e é feliz, numa felicidade vulnerável e fantasiosa.

09 novembro, 2006

Penso

penso na ciranda do dia-a-dia penso na poesia calma das linhas retas do mar penso no terror e na dor penso na beleza de minh’alma penso nas bonitas palavras penso na corrente que prende penso na água que é fresca e corrente penso em correnteza penso em merthiolate penso no que há penso inutilmente penso na garrafa plástica penso em felicidade penso infelicidade penso em solavancos mórbidos e em sonhos doces penso em olhos grandes penso em cuecas samba-canção penso no futuro do rádio de válvulas penso na esquina do velho rádio velho de válvulas penso em caboclo penso em sujeito e predicado penso em texto justificado penso em justificativa penso entre fones de ouvido penso em risada de homem limpando a piscina penso em toda gente se favorecendo e em árvore florescendo penso em gosto de amido e em laboratório de química penso repetidamente penso em figurinhas amassadas penso no México penso que não estive lá penso que sem ter estado posso pensar penso em estado paralelo penso em redondeza penso em miolo e em sabiá-canção penso em canetas rabiscando a tela penso sutilmente em sutileza penso em gelatina pura penso em mandarim e penso em português pois em mandarim não penso em poesia concreta penso porque penso em abstrato denso penso
(Texto de Rafael Cajibrino Bacelar)

26 outubro, 2006

Um cicerone, um visitante e um conto

Por pouco não fora uma overdose. Não lembrava por quando tempo havia consumido avidamente toda aquela sorte de drogas. Uma semana? Um mês? Um ano? Mais! O tempo em questão lhe era vago. Podia ser maior. Podia ser menor. Ele preferia crer na primeira hipótese. E seu transe? Deste, a lembrança era mais certa. Acontecera há cerca de um ano. O transe o havia marcado: vira um anjo.

Havia algo que tirava aquele homem do conjunto dos meros homens. Sim, era anjo! E por ser anjo era interdito. Não podia ser tocado. Podia sim ser observado. Mas quem teria força para olhar naqueles olhos pelo tempo suficiente? Ele não tinha. E se tivesse, haveria o tempo suficiente? Apesar disso, por um esforço involuntário a mão do visitante foi tocada. O toque foi retribuído, até com certo gosto. Mas não passou disso. Era anjo e era interdito.

Aconteceu que o efeito passou.

Foram instantes de felicidade radiante, mas algo o atormenta. Não sabe se o visitante é o que foi, ou se é uma criatura de sua cabeça há tanto alucinada. Tem certeza de que houve visitante. Era todo material! Era físico demais! Mas não há como certificar sua procedência.
Agora, ele sozinho, jogado de volta ao real que é o mundo de chão, encontrou uma única saída. Usa toda a sorte de drogas, entre as velhas conhecidas e novidades tecnológicas, buscando reencontrar, alucinada ou não, aquela divina sensação. amor

(Para Marisa, a cantora. Toda essa trama só acontece porque ouço e distorço sua música)

17 outubro, 2006

Poema para Carolina

Agora a flor-mundo se abriu
e mostra suas pétalas a quem quiser ver.
A menina foi a primeira a perceber.
Curiosa, chegou mais perto para observar
e se perdeu pelo cheiro que saturara o ar.

O cheiro tinha algo de musical.
A moça não resistiu
e àquele odor dançou
num jardim cheio de sol primaveril.

A mulher descobriu a música
e agora cismou de dar festas.
E dá festas!
Deslumbrada, me convida!
Convida a todos!


Junto do nascer do dia,
sentindo-se exausta
chega ela à sua moradia.
E ainda assim, o sono só a arrebata
depois de ela ter arquitetada
uma nova noite de folia.

É num desses momentos que,
perdida em pensamentos,
ela encontra o doce odor em seu corpo.
Então nota que ele sempre fora seu,
e se hoje é também do outro
é porque em algum momento ela o cedeu.

Confusa, ela se tranca em seu quarto
e se surpreende ao olhar
um seu antigo retrato.
É aí que tudo se encaixa:
ela é a flor.

Enquanto ela se observa,
passam dias e noites.
E junto passa o tempo
acompanhado de seus ciclos
.................belos e absurdos.

(para Carolina)