08 abril, 2010

Visitas, lampejos e outras cores

Novo blog.
Outros posts, outros poemas.

O vermelho fica,
mas junto do tempo e das saudades:
fica pra trás.

(Sem querer, desastrada que sempre foi, ela fura o silêncio
da noite

do poema:
me diz que "o Amor é grande demais pra caber numa só cor"

e Sorri)


A partir de agora, penso que estarei mais presente no blog coletivo http://damansarda.blogspot.com/

02 março, 2010

Amor e Saneamento

1.

Morreu um menino no Piauí.

Depois da primeira noite de exibição de filmes no Teatro Maria Bonita, a grande mesa coletiva de café da manhã estava em silêncio. Os olhares eram quietos e se continham para baixo: o menino morto era membro do ponto de cultura que promovia o festival.

A mesa crescia, e a comida era boa, assim, pouco a pouco, os olhares iam se esquecendo de ser cerimoniosos. Foi daí que veio a explicação: madrugada, ele caminhava de volta para casa na companhia da namorada:

- Me dá o celular!
- Não dou!
- Gritou um tiro no peito.

Graças a uma sobra de compaixão, a menina não fora tocada.


2.

No dia seguinte, já havia alguma leveza. Pelos corredores, contada em sussurros, a história era toda outra. A menina tinha, além do rapaz, um outro namorado. E numa tocaia, que ninguém me sabia explicar e que eu não sabia acreditar; numa tocaia consumada em meio a telefonemas anônimos e uma tentativa de levar à força o menino para casa; numa tocaia feita por amor, pela menina, pelo outro namorado, é que o menino havia morrido.

Pensei que era muito banal se morrer por uma namorada adolescente. Mas talvez não o seja. E, além do mais, no Piauí, as coisas são um pouco diferentes. Lá, quando se vai a um bar ou restaurante e se pede água para acompanhar uma refeição, eles a trazem sem nenhum custo adicional. A água é da bica, não é filtrada, pode vir a ponto de congelar. Mas não será negada: eles a dão de graça. O garçom me explicou:

- Você me pediu água. Não pediu água mineral.

Ele tinha razão. Eu bebi.

Mais tarde disseram que o caso deu no telejornal.


3.

Sente-se um cheiro nauseante quando se desce pela primeira vez na rodoviária de Piripiri. Em São João do Piauí a rodoviária estava (e tenho certeza que ainda está) tomada de moscas. Em algumas ruas dos arredores do Campus da Universidade Federal do Piauí, vê-se esgoto sendo expelido por buracos-canos em calçadas, para em seguida tornarem-se magros filetes corredores das sarjetas.

Cruzando uma rua movimentada de Teresina, deu comigo um mais atrevido desses filetes. O moto-taxista - não haveria de ser de outra maneira - foi indiferente e passou por cima do estreito fio. Entendi que ao invés de bermudas, ali, eu deveria usar calças compridas.


4.

De Floriano, soube do caso de um amigo no Rio. Fazia poucos dias que havia se afastado de sua nova namorada, e, má surpresa, numa festa de sábado à noite, a encontrou aos beijos com um novo rapaz. Se entristeceu, foi buscar uma cerveja, e quando voltou ela já não estava mais: partiu, sem que ele pudesse saber se ela também o havia visto. Mas ela o viu.

No dia seguinte um foi à praia, o outro, ao museu. Mais tarde se telefonaram. À noite, se encontraram, conversaram e decidiram reatar o romance. Ninguém morreu. Não deu no telejornal.


5.

Na minha única noite em Teresina, beijei uma aluna da universidade. Ela me levou a um bar, onde conversamos como velhos conhecidos, como se ali já estivéssemos, e ainda houvéssemos de estar, outras vezes. No meio da noite, a moça quis me dar seu número de telefone. Anotei, e sabia que jamais ligaria. Também me deu um endereço de e-mail. Eu sabia que jamais escreveria.

Era preciso seguir viagem. E, na despedia, a moça me deu ainda mais o que podia, o que tinha para dar: me deixou uma caneta bic da cor preta. E, somente porque foi a primeira que encontrei, é com esta caneta que rascunho estes versos.

19 fevereiro, 2010

Poema só para Jaime Ovalle

Quando hoje acordei, ainda fazia escuro
(Embora a manhã já estivesse avançada).
Chovia.
Chovia uma triste chuva de resignação
Como contraste e consolo ao calor tempestuoso da noite.

Então me levantei,
Bebi o café que eu mesmo preparei,
Depois me deitei novamente, acendi um cigarro e fiquei pensando...
- Humildemente pensando na vida e nas mulheres que amei.

(para esta longa quarta-feira-de-cinzas, este Manuel Bandeira)

08 fevereiro, 2010

Saias e lampejos

Da primeira vez que vi Beatriz,
durante dias,
o chão da minha casa só soube fazer brilhar.

Todos os cômodos,
era como se ela o tivesse tornado um pedaço de céu:
Porque o chão virou todo polvilhado de redondas estrelas.

(tempo)

Esta noite, o chão é apenas um chão,
de pés, de poeira.
Eu o observo...

e penso que Beatriz nunca mais me usou a saia que usava naquele primeiro dia.

15 novembro, 2009

Em resposta à vendo passar ela

Amor-morto.
Não foi o vermelho que expirou
A tragédia cedeu lugar à pressa
E o real contaminou a graça.
E o amor, este sim, mudou
A morte de amor, morreu
Os olhos dos amantes
Se encheram de preguiça
E a dor não mata mais.
Assim.


Os livros que tratam dos amores dilacerados
Que se dilacerem eles próprios
Ou que ardam – na brasa do sol!
Mudem de nome as criaturas
De um poeta inglês
E se criem novos heróis à maneira nova
Que secam lágrimas ao calor úmido.
Quando choram.


As amêndoas amargas de linhas colombianas
Não exalam seu perfume como dantes
Remetendo aos desejos sem ventura.
Tudo se arruma.
E a dor vem sim como um remédio
Que só no íntimo – e no gosto –
Remete às amêndoas.


Amor-novo.
De um novo entender o sol
E o frescor, o frescor raro.
À maneira nova, serão levados
Os amores – com e sem ventura!


Se a um tempo não se morre, se passa
Ao que se pode ver a extrema graça
De morrer
Um pouquinho de amor


Naquela manhã de fevereiro,
Restaram o sol e os confetes na sarjeta.
E a praça, a praça
continuava ali.


(Ao amigo Rodolfo, que me deu a forma desta poesia.
E a elas, elas que passam.)

Poema do amigo Rafael, em 22 de fevereiro de 2007

17 setembro, 2009

Sapato Florido

DA PAGINAÇÃO 

Os livros de poemas devem ter margens largas e muitas páginas em branco e suficientes claros nas páginas impressas, para que as crianças possam enchê-los de desenhos - gatos, homens, aviões, casas, chaminés, árvores, luas, pontes, automóveis, cachorros, cavalos, bois, tranças, estrelas - que passarão também a fazer parte dos poemas…


TRISTE ÉPOCA

Em nossa triste época de igualitarismo e vulgaridade, as únicas criaturas que mereceriam entrar numa história de fadas são os mestre-cucas, com os seus invejáveis gorros brancos, e os porteiros dos grandes hotéis, com os seus alamares, os seus ademanes, a sua indiscutida majestade.


EXEGESE

- Mas que quer dizer esse poema? - perguntou-me alarmada a boa senhora.
- E que quer dizer uma nuvem? - retruquei triunfante.
- Uma nuvem? - diz ela. - Uma nuvem umas vezes quer dizer chuva, outras vezes bom tempo...


QUE HAVERÁ NO CÉU?

Se não houver cadeiras de balanço no Céu... que será da tia Élida, que foi para o Céu?



(Todos poemas do livro Sapato Florido, de Mário Quintana)

03 setembro, 2009

Pro Bem da Cidade

Como é difícil você não se entrosar
e ainda ter uma certa tendência
a se espreguiçar em hora errada:
e São Paulo não pode parar pra te acompanhar.

Como é difícil!
E você acaba perdendo a calma
porque seu ônibus não espera.
Você vem devagarinho, meio com sono,
ele não espera.
Se você corre, gesticula,
grita desesperado, ele espera.
Mas se você vem devagarinho, meio com sono,
ele não espera.

Acho que vou ter quer dar um jeito nessa cidade.
É pro bem dela.
Já que não vou mudar mesmo,
eu vou dar um jeito nela.
É pro bem dela.

(Simples canção de Luiz Tatit - Rumo aos antigos)

30 julho, 2009

Modelo de cantada vulgar para uma mocinha sentada no banco da frente do ônibus

Os cabelos de - qual é o teu nome? -
são aquele cabelo-idéia de que falaria Platão.


(meio segundo depois - chato - me desperta que, sem lembrar, roubei os versos
já prontos num poema qualquer do Bandeira)


fevereiro de 2009

16 janeiro, 2009

Ausência número 2

nesse domingo
Passado
acordei com teu Cheiro

cheirando sobre os meus ombros

13 dezembro, 2008

Comprimido

Deixou a marca dos dentes
Dela no braço
Pra depois mostrar pro delegado
Se acaso ela for se queixar
Da surra que levou
Por causa de um ciúme incontrolado

Ele andava tristonho
Guardando um segredo
Chegava e saía
Comer não comia
E só bebia
Cadê a paz
Tanto que deu pra pensar
Que poderia haver outro amor
Na vida do nego
Pra desassossego
E nada mais

Seu delegado ouviu e dispensou
Ninguém pode julgar coisas de amor
O povo ficou intrigado com o acontecido
Cada um dando a sua opinião
Ela acendeu muita vela
Pediu proteção
O tempo passou
E ninguém descobriu
Como foi que ele
Se transformou

Uma noite
Noite de samba
Noite comum de novela
Ele chegou
Pedindo um copo d’água
Pra tomar um comprimido
Depois cambaleando
Foi pro quarto
E se deitou
Era tarde demais
Quando ela percebeu
Que ele se envenenou

Seu delegado ouviu
E mandou anotar
Sabendo que há coisas
Que ele não pode julgar
Só ficou intrigado
Quando ela falou
Que ele tinha mania
De ouvir sem parar
Um samba do Chico
Falando das coisas do dia-a-dia

(Samba de Paulinho da Viola. Pra se ouvir quando
cantado pelo mesmo ou por Cristina Buarque)

29 novembro, 2008

No Infanto?

.


Um lenitivo para os aflitos. Carnaval está pronto. Falta só botar a escola na rua!

09 novembro, 2008

Ausência número 1

Esses shorts amarelos...

.
.
.


são a coisa mais insosa do mundo
sem você.

07 abril, 2008

O beijo

Quando a moça lhe estendeu a boca
(A idade da inocência tinha voltado,
Já não havia na árvore maçãs envenenadas),
Ele sentiu, pela primeira vez, que a vida era um dom fácil
De insuspeitáveis possibilidades.

Ai dele!
Tudo fora pura ilusão daquele beijo.
Tudo tornou a ser cativeiro, inquietação, perplexidade:

- No mundo só havia de verdadeiramente livre aquele beijo.

(de Manuel Bandeira)

02 março, 2008

Por uma glote que se fecha

Era linda e
sentara ao meu lado

e soluçava.
Às 3 e 55 da madrugada,
sem poder se conter,

soluçava.

Ritmado,
súbitos solavancos, ruídos,
o soluço
a tornava cômica.

E cômica
(nos soluços)
em parte(s)
deslindava,

enquanto soluçava.

10 dezembro, 2007

Não-poema todo pra Lia

1.
Nem todo mundo
dá num poema
meu
ou de qualquer outra pessoa.

2.
Ele - o poema -
salta, corre, dança
tentando te ser,
mas não alcança:
me foge.

Ele - não este -
pensa, fabula, conspira
e, tentando te ser,
irrompe em fala.
Mas fala pouco,
fala sem ênfase:
e não te serve.

3.
Aqui, a busca pára
e o poema não aparece.
Entrego: não tenho a técnica para fazê-lo.
Mas sei bem
que ele existe, mesmo
sem ser encontrado,
ante-estético, em mim.

4.
Então, este - o não-poema - se faz
no inconcluso.
Se faz pouco,
e tampouco te diz ou te digniza,
mas, teu,
é o que pude
com tempo estreito
e largo carinho,
Lia.

27 novembro, 2007

João Cabral de Melo Neto


O que se diz ao editor a propósito de poemas

Eis mais um livro (fio que o último)
de um incurável pernambucano;
se programam ainda publicá-lo,
digam-me, que com pouco o embalsamo.

E preciso logo embalsamá-lo:
enquanto ele me conviva, vivo,
está sujeito a cortes, enxertos:
terminará amputado do fígado.

Terminará ganhando outro pâncreas;
e se o pulmão não pode outro estilo
(esta dicção de tosse e gagueira),
me esgota, vivo em mim, livro-umbigo.

Poema nenhum se autonomiza
no primeiro ditar-se, esboçado,
nem no construí-lo, nem no passar-se
a limpo do dactilografá-lo.

Um poema é o que há de mais instável:
ele se multiplica e divide,
se pratica as quatro operações
enquanto em nós e de nós existe.

Um poema é sempre, como um câncer:
que química, cobalto, indivíduo
parou os pés desse potro solto?
Só o mumifica-lo, pô-lo em livro.


Com este poema João Cabral abre seu livro de poemas (nao foi o último) "A escola das facas".

17 outubro, 2007

Uma canção

Desde o início de uma manhã qualquer
homens de terno apertados
por suas gravatas refrescados
por aparelhos
de ar condicionado
conspiram contra o meu futuro.

Eu apertado por tudo
menos por enquanto
........ por gravatas de tecido
levo adiante a comum subvida
que se leva numa cidade
vestida de calças e paletó.

No caminho
de ida gasto
horas do meu dia
o preço desonesto da passagem (de onibus?)
e minha ternura.

No caminho
sem volta alheio
a tudo
enquanto os dias estão cada vez mais perdidos
tento tomar um pouco de ar
:afrouxo gravatas:
de saias e cheirando a mato
escrevo uma canção.

28 setembro, 2007

Ode ao ruído

Na rua,

(Um homem ao outro mais moço: Há três anos? Então você ainda não sabe. Três anos!? Quando tiver uns dez, aí você vai começar a entender.)

eu é que

(A mulher, simples, bêbada e em sorrisos: Sabe quantos anos eu tenho? Quinze! Eu vou ter pra sempre quinze anos de idade! - e mais sorrisos.)

não me fecho

entre parênteses

de ouvidos

(Vitor, amigo essencial e perdido, me dá um grito.),

enquanto tudo

ruído

polui o ar

de música, antimúsica, lira e antilira,

nun i-pod.


Rua é lugar de )orelha( nua.

06 agosto, 2007

www.

musicaparada.blogspot.com

13 maio, 2007

Nova poesia

Eu nem sou
isto espalhado por
Aqui
o que se vê é
um outro, que oscila:
ora meu vizinho próximo,
ora morador de nem sei onde distante.

Que este eu exista e se confunda
comigo
na maioria das vezes
na maioria das vezes
é só mostra do quão
...........................raso
.......................... novo
............ sou eu
............ é tudo

por aqui.